O Governo Rafael Fonteles tenta transformar a primeira exportação de minério pelo Porto Piauí em um grande espetáculo político. A propaganda oficial fala em “momento histórico”, “entrada no comércio internacional” e “revolução logística”. Mas, por trás do discurso ensaiado, a própria operação mostra uma realidade bem diferente da que o Palácio de Karnak tenta vender ao povo piauiense.

O que está sendo apresentado como funcionamento pleno do Porto de Luís Correia é, na prática, uma operação intermediária, dependente de transbordo em alto-mar. O grande navio que levará o minério para a China não atraca diretamente no porto. A carga precisa sair em embarcação menor, navegar até uma área distante da costa, passar por um navio-pulmão e só depois seguir para uma embarcação oceânica.

Ou seja: o governo comemora como se o Piauí tivesse um porto completo, robusto e plenamente operacional. Mas a logística revela outra coisa: a estrutura definitiva ainda não está pronta para fazer aquilo que um porto funcional deveria fazer com normalidade.

Não é grande navio atracando no Piauí; é transbordo em alto-mar

A primeira operação envolve o navio graneleiro Konta II, que atraca no Terminal de Uso Privado para receber cerca de 9 mil toneladas de minério por viagem. Depois, a embarcação segue até uma área de fundeio a aproximadamente 37 quilômetros da costa, onde ocorre a transferência para um navio-pulmão. Só após esse processo a carga é repassada para um navio de classe oceânica, com capacidade superior a 100 mil toneladas, que seguirá viagem internacional.

Esse é o ponto que a propaganda do governo tenta esconder no meio da festa: o porto ainda não recebe diretamente o grande navio de exportação. O que existe é uma solução alternativa para viabilizar a operação antes da entrega de estruturas portuárias mais complexas.

A pergunta que precisa ser feita é simples: se o porto está pronto como o governo diz, por que o minério precisa ser levado para longe da costa em uma embarcação menor antes de seguir para a China?

Propaganda de obra pronta, realidade de estrutura incompleta

O governo tenta vender a imagem de que o Porto Piauí já é uma máquina logística consolidada. Mas a própria explicação técnica sobre o transbordo mostra que a solução foi adotada justamente para antecipar o funcionamento sem esperar a conclusão de estruturas portuárias mais robustas.

Isso desmonta a narrativa triunfalista. O que Rafael Fonteles chama de “marco histórico” pode ser visto, politicamente, como uma tentativa de transformar uma solução provisória em vitrine eleitoral.

Não se trata de negar a importância de um porto para o Piauí. O estado precisa, sim, de infraestrutura, logística, desenvolvimento e escoamento da produção. O problema é vender como obra plena aquilo que ainda depende de improviso operacional, navio-pulmão, transbordo, dragagem, estrutura complementar e etapas futuras.

O povo não pode ser tratado como plateia de propaganda. O piauiense tem o direito de saber quanto essa operação realmente custa, quem ganha com ela, quanto o Estado arrecadará de fato e quando o porto funcionará sem maquiagem.

O custo da festa enquanto o Piauí sofre

A primeira etapa de infraestrutura do Porto Piauí é apontada com investimento de R$ 200 milhões. Além disso, o próprio governo já fala em mais de R$ 7 bilhões em investimentos públicos e privados até 2030.

Enquanto isso, o Piauí segue tomando empréstimos bilionários. Recentemente, a Assembleia Legislativa aprovou novas operações de crédito que somam quase R$ 1,6 bilhão para o Governo do Estado. Pouco antes, o Senado também autorizou empréstimos externos, incluindo cerca de R$ 1,83 bilhão para reestruturação de dívida estadual.

É nesse cenário que a propaganda do porto precisa ser questionada. O governo se endivida, aumenta a pressão sobre as contas públicas e tenta vender uma imagem de grande avanço, mas o povo continua esperando o básico.

No interior, tem gente sem estrada decente, sem atendimento médico rápido, sem emprego com carteira assinada, sem água regular, sem esgoto tratado e sem perspectiva de renda. Para essas famílias, o espetáculo do navio em alto-mar não enche a panela, não paga remédio, não leva ambulância e não garante dignidade.

O Piauí real não aparece na propaganda

Enquanto Rafael posa para foto e transforma a operação do porto em peça de marketing, os números sociais do Piauí continuam gritando.

O estado registrou uma das maiores taxas anuais de desocupação do país em 2025. Também apareceu com a maior taxa de subutilização da força de trabalho no fim do ano, mostrando que muita gente está desempregada, trabalhando menos do que precisa ou simplesmente sem oportunidade real.

A informalidade segue alta. Isso significa piauiense vivendo de bico, sem carteira assinada, sem segurança, sem direitos e sem saber se terá dinheiro no fim do mês.

A renda domiciliar per capita do Piauí também segue muito abaixo da média nacional. Na prática, é o retrato de famílias que fazem conta para comprar comida, pagar energia, remédio, transporte e material escolar.

E no saneamento, a situação é ainda mais revoltante. Levantamento do Tribunal de Contas mostrou que apenas uma pequena parte da população piauiense tem acesso a esgotamento sanitário. No meio rural, a realidade é ainda mais cruel.

Esse é o Piauí que não aparece no vídeo oficial. Esse é o Piauí que não cabe na propaganda do Karnak.

Enquanto o governo olha para a China, o interior pede socorro

A exportação de minério para a China pode ser economicamente relevante. Mas a pergunta política é outra: o que isso muda agora na vida do piauiense pobre?

Muda a vida da mãe que espera consulta para o filho? Muda a vida do trabalhador que vive de diária? Muda a vida do agricultor que enfrenta estrada ruim? Muda a vida da família que ainda convive com esgoto a céu aberto? Muda a vida do jovem do interior que quer emprego e só encontra promessa?

O governo Rafael Fonteles tenta construir a narrativa de um Piauí moderno, conectado ao mundo, exportador e eficiente. Mas, para milhões de piauienses, a realidade ainda é de atraso, abandono e sobrevivência.

É essa contradição que precisa ser exposta: o governo comemora navio, mas o povo cobra dignidade.

Senador Ciro Nogueira já alertou: não é porto funcional, é improviso

A crítica feita pela oposição vai direto ao ponto. Sem dragagem definitiva, sem calado adequado para grandes navios atracarem diretamente e com necessidade de transbordo em alto-mar, não se pode vender a operação como se o Porto de Luís Correia estivesse plenamente funcional.

O senador Ciro Nogueira já classificou esse modelo como improviso e propaganda eleitoreira. E a própria logística divulgada dá força a essa crítica.

A questão não é ser contra o porto. A questão é ser contra a mentira política. O Piauí precisa de porto, mas precisa de verdade. Precisa de desenvolvimento, mas não de maquiagem. Precisa de obra, mas não de espetáculo montado para tentar salvar discurso eleitoral.

Perguntas que Rafael Fonteles precisa responder

O governador deveria explicar ao povo piauiense:

Quanto custa, por tonelada, essa operação com transbordo em alto-mar?

Quem paga o custo adicional do navio-pulmão, dos rebocadores e das empresas especializadas?

Quanto o Piauí arrecadará efetivamente com essa primeira exportação?

Quantos empregos diretos e permanentes foram gerados para trabalhadores piauienses?

Quando o porto terá estrutura para receber diretamente navios de grande porte?

Qual é o cronograma real de dragagem e ampliação do calado?

Por que o governo comemora operação em alto-mar enquanto o Piauí ainda tem desemprego alto, renda baixa e saneamento precário?

Essas perguntas não podem ser abafadas por vídeo bonito, discurso emocionado com algumas dose de whisk ou peça publicitária.

Desenvolvimento de verdade começa pela vida do povo

O Piauí não precisa de governador fazendo turismo político em obra incompleta. O Piauí precisa de gestão que cuide da vida real das pessoas.

Porto é importante. Exportação é importante. Logística é importante. Mas nada disso justifica transformar operação provisória em propaganda grandiosa enquanto o povo continua sofrendo com problemas básicos.

O desenvolvimento verdadeiro não é medido apenas por navio, minério e discurso para a imprensa. Desenvolvimento se mede por emprego, renda, saúde funcionando, escola de qualidade, água na torneira, estrada boa e esgoto tratado.

Enquanto isso não chegar à vida do povo, a propaganda do governo será apenas isso: propaganda.

E o piauiense já está cansado de ver festa no palanque enquanto a realidade bate à porta com desemprego, abandono e conta para pagar.